ENGRENAGENS

Depois de um tempo

os relógios fazem pouco sentido.

As engrenagens

são apenas coisas que existem

e se bastam a si mesmas.

Talvez se percorra

em vão algum caminho

já que sempre estamos

em busca.

A vida já perdeu o sentido

faz um tempo razoável

e você sabe disso.

 

Márcio Costa

 

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exercícios de aproximação (2006)

1

alguns de meus amores, passados amores, como estes: mentirosos
alguns de meus poemas, atuais poemas como esse: mentiroso
como um vício no exílio- certas overdoses de saudades- e num grito plástico como se pudesse comer o mundo todo toda a matéria e a luz meu poema como um gole de cerveja banal, igual, sobrevive a ponto de morrer
fosse ele somente o poema da dor mas é o poema do amor morto pedaço de nada nenhuma verdade nenhum segredo poema inútil como essa hora

(…)

Márcio Costa

Ausência

ausencia

A ausência tem um peso

mais específico sobre os ombros.

Você pode olhar uma fotografia

e lembrar de um sorriso.

Antigamente quando as fotografias

eram de papel uma porção grande

de sorrisos acabavam se perdendo.

Se apagavam, permanecendo pouco,

pouco tempo na memória.

Um dia acordava-se e uma nuance,

um detalhe, uma ruga, o jeito

que a mulher olhava em direção

da lente agora distante,

já não existia. As pessoas ficavam

doentes, difícil nunca mais lembrar

o sorriso do amor de uma vida.

A ausência, faz crescer a playlist

de músicas tristes, o smartphone

é um álbum de fotografias

e de sorrisos. Procuramos,

agora dependentes da luz

e da energia elétrica a melhor memória

para representar o amor que pendeu

como uma chuva forte, uma lâmina

de carrasco e colheu os sons da boca

que agora só balbuciam notas

que habitam a noite numa melodia

que faz lembrar canções da infância,

constantemente revisitadas.

 

Márcio Costa

SOLIDÃO CONTINENTAL

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Este é o último livro que li, um romance de João Gilberto Noll, meu escritor preferido já faz uns anos. Não li a obra completa dele ainda, tarefa que estou me empenhando e que pretendo terminar em breve. É uma leitura que deve ser muito atenta, pois a cada frase bem construída se esconde uma imagem dessa “Solidão continental”, que nos envolve e nos conduz a esse mundo real, grotesco e ao mesmo tempo tão chamativo.

Gostei muito de um texto de Ubiratan Brasil, de 2012, que traz algumas considerações do autor sobre sua obra e sua vida.

***

João Gilberto Noll fala de imprecisões em ‘Solidão Continental’

Por mais que busque o outro, o protagonista de Solidão Continental, novo romance de João Gilberto Noll, confirma o título e persiste solitário. Encontros carnais existem, mas a alma continua em busca de um complemento. A sexualidade em Noll é dolorosa e sem saída. Solidão Continental marca o retorno do escritor gaúcho ao texto longo dirigido a um público adulto – nos últimos anos, Noll se dedicou a livros para adolescentes, escrevendo sobre a fase da existência em que dúvidas profundas convivem com certezas absolutas. Agora, com o novo romance, retoma temas que lhe são eternamente caros.

“A prática da escrita é que faz construir a minha literatura, as suas atmosferas, a caminhada meio errante da minha criatura”, afirma ele em entrevista ao Sabático, por e-mail. O romance acompanha os passos de um homem que, de Chicago a Porto Alegre, cruza o continente em busca de respostas para suas divagações existenciais. Sobre o assunto, João Gilberto Noll, 66 anos, respondeu, com o seu apurado estilo, às perguntas enviadas.

Por que o grande personagem, em Solidão Continental, sempre parece ser o outro?

Se essa impressão ocorre, acho que ela vem do fato de o romance apresentar um sujeito em constante formação, entre a maturidade e a velhice, um homem que não se sentirá pronto enquanto não se inserir na alma do outro ou na própria natureza que o circunda. Pássaros, formigas, flor, o arrebol por vezes disfarçam a sua incompletude. Durante uma boa parte do livro, ele tem esses elementos por perto para ignorar provisoriamente a sua existência parcial. Mas me parece que se encarnar de fato no outro, como acontece ao final de Lorde, isso não está agora em pauta, o personagem não tem mais idade para encarar esse romantismo tão radical.

Como sempre, o senhor faz da solidão uma arte. O que tanto o atrai na solidão?

Acho que os seres que sofrem alguma atração maior pela solidão têm no seu mundo interior uma inflamação grave. Aqui, o de dentro é mais dilatado que o de fora. Há casos sem anti-inflamatórios que aliviem. Mas o protagonista de Solidão Continental sente que desperdiçou sua vida nessa condição, precisa de um amor, de voltar a ter a experiência do tato na pele do outro. Bem ao final, nos parágrafos derradeiros, surge uma promessa e ele se deixa levar por uma coreografia que o surpreende de fato, mas o cara não suspende o gesto e vai ali e toca, e já se vê tirando a roupa e a do outro corpo também.

O senhor escreve para celebrar a vida, ainda que seus personagens pareçam viver em completo exílio. Como explica isso?

A cena que acabei de revelar mostra justamente isso. Esse exílio contém em si, em certos momentos, seus próprios anticorpos. O instinto de morte, esse estar desaparelhado para a vida prática, ordenadora, construtiva, pode entrar em colapso e a luz entrar. A carnalidade então se expõe. É o que acontece com muitos dos meus protagonistas. Tenho notado ultimamente que a sua essência é a mesma de livro para livro. Não há continuidade de um romance para outro. As circunstâncias mudam. Mas a alma desse homem é a mesma a cada ficção. Esse ser geralmente sem nome, sobretudo em Solidão Continental, se indispõe ferozmente contra as suas próprias circunstâncias, como se ele tivesse sido jogado num mundo que nunca pediu. Por isso, por vezes, a sua quase que sanha paranoide.

Já se disse que o senhor narra como se fosse um geógrafo perdido num mundo esfumaçado. O senhor acredita que isso se aplica com mais intensidade a esse novo livro?

Gosto, sim, de compor cenas imprecisas, difusas. É como se fosse uma reação a um mundo exacerbado de assertivas definidoras e definitivas. Esse meu personagem é cheio de melindres no contato com as coisas, tem pouca iniciativa, bebe do outro diria que passivamente, com medo de que, com um gesto, possa inaugurar uma dimensão emancipatória, dimensão que… ele retarda… só sabe retardar.

Em alguns momentos, Solidão Continental faz pensar que se trata de um “falso” romance em que se esconde um livro de contos. Concorda?

Acho que não. Trata-se de um livro em capítulos, sendo que os três primeiros revelam o cara em viagem: Chicago, Madison e Cidade do México. Os outros pegam esse sujeito que se diz chamar João Bastos numa emergência hospitalar, pegam o sujeito no seu habitat, Porto Alegre. A partir da cidade brasileira começa a haver uma progressão mais incisiva, mesmo que esfumaçada. Ele segue o garoto como um cão segue o dono, ele se vê entre a vida e a morte, se fere, adquire uma cicatriz profunda na cabeça. Consegue se evadir do hospital, mas acha que precisa voltar para o pronto-socorro para não perder o próprio corpo, porque às vezes acredita que o seu próprio corpo ficou sobre a maca e ele é apenas um fantasma meio extasiado com o que o constitui. Quer dizer, há uma linha relativamente clara que percorre o campo do romance quase inteiro, embora com todas as tortuosidades. Mas a vida é assim, não é?

O senhor já disse que não se considera um autor biografista, mas quais são os limites entre o vivido e o fantasiado?

Esse homem que protagoniza os meus romances eu não o projetei desde o início da minha atividade literária. Hoje sei que ele está aí e que não é propriamente o meu eu biográfico, o cidadão João. Não, é diferente: ele pode até ter vindo da minha natureza, mas é um segundo personagem que não o da minha cidadania exercida no dia a dia social. Ele habita em mim, tá certo, eu o abrigo com certo desvelo, ok, mas se eu fosse viver a sua intensidade e coragem na vida real, eu hoje não passaria de uma lápide.

A urgência, a asfixia, até o surreal contribuem aqui para sua literatura do atordoamento. O senhor habitualmente começa a escrever quando forçado por essas sensações ou acontece o contrário, a escrita é que proporciona isso?

É a própria prática da escrita que faz construir a minha literatura, as suas atmosferas, a caminhada meio errante da minha criatura, etc. A aventura da escrita é que projeta na tela aquilo que ainda não sei quando sento pra trabalhar. Sim, tenho o personagem – e eu que o coloque em ação e reflexão como se em improvisos diários. Não, não sou tomado por atmosferas raras quando sento para escrever. Ao contrário: miro a tela em estado de vazio para que a presença do personagem possa se estabelecer.

Concorda com o que afirma Jefferson Agostini Mello na introdução do livro, de que esse é um de seus relatos mais intrincados?

É o enredamento típico da vida. Ninguém consegue viver com a nitidez de um romance naturalista. Não é um livro doutrinário da causalidade. No meio da enorme confusão urbana de hoje, quantas vezes não nos indagamos se já não estamos comprometidos neurologicamente para a cristalina apreensão dos fatos?

Seu texto novamente é marcado pela coragem, seguindo na contramão de algumas tentativas no sentido contrário, que buscam uma certa moralização da literatura. O que pensa disso?

Se existe essa tentativa mais do que em outros tempos eu estou distraído para percebê-la. Eu sigo tentando cumprir as minhas pulsões mais atávicas em dizer o nome das coisas eróticas como elas se me apresentam em portas de banheiros públicos e em outros lugares menos nobres. Mas, claro, não faço um documentário sobre a pornografia social, isso tudo vem ao lado das minhas leituras de Vieira, Faulkner, Clarice. Definitivamente, não me considero um pornógrafo, um sensacionalista. Em primeiro lugar, vem a linguagem. É com ela que trabalho primordialmente, não para aliviar as tensões sexuais do leitor. A mediação para o erótico, aqui, é a linguagem.

TRECHO

“Olhei irrefletidamente para uma espécie de recesso, um microespaço que eu jamais suporia que aquele quarto pudesse conter, algo normalmente escondido no azáfama da vista, uma coisa que não vinha propriamente de fora, mas de uma projeção de dentro, reconheço, algo como um refúgio”

CASSANDRA

craig

Olhou para Cassandra com uma sensação esquisita. Eram duas horas da manhã, madrugada de domingo, ela sempre lia romances russos de madrugada. Adorava Dostoievski. Eram longos o suficiente para se entrar no mundo deles e morar por uns dias. Ficou atônito, encarando-a pelas costas, as mãos geladas e trêmulas, no mesmo instante em que via sua fotografia, ali, grudada na parece, de dez anos antes, quando ainda era viva.

Márcio Costa